O TDAH ainda é amplamente associado a impulsividade, agitação e desatenção. Porém, na rotina clínica, os impactos mais relevantes para o fonoaudiólogo aparecem na comunicação — e são justamente os menos discutidos na formação e nos atendimentos iniciais. Quando o profissional não reconhece esses pontos, interpreta sinais de maneira equivocada, classifica como “comportamento” o que é, na verdade, dificuldade neurofuncional, e conduz intervenções que não avançam.
Um dos efeitos mais marcantes do TDAH sobre a comunicação é a instabilidade atencional que prejudica a construção de linguagem funcional. A criança até entende instruções, mas não sustenta foco suficiente para integrar, organizar e usar essa informação linguisticamente. Isso gera respostas inconsistentes, rupturas conversacionais e dificuldade em manter reciprocidade comunicativa. Não é falta de interesse — é dificuldade de manter o circuito atenção–processamento–resposta.
A autorregulação também interfere diretamente na comunicação. Crianças com TDAH tendem a interromper, mudar de assunto, acelerar a fala ou perder pistas sociais importantes porque não conseguem monitorar seu próprio comportamento comunicativo em tempo real. Essa desregulação compromete conversas, atrapalha interações escolares e gera frustrações repetidas que impactam autoestima e engajamento.
Outro ponto crítico, mas pouco explorado, é a influência do TDAH nas habilidades de linguagem receptiva. A criança pode ouvir, mas não acompanhar narrativas longas, não reter informações essenciais e não compreender nuances pragmáticas que exigem atenção contínua. Muitas vezes, isso é confundido com déficit cognitivo ou imaturidade, quando, na verdade, é uma manifestação direta da dificuldade de sustentação mental.
Além disso, a impulsividade afeta a organização discursiva. As produções podem vir desconectadas, com desvios na temporalidade, falta de contexto ou excesso de detalhes irrelevantes. O profissional que não está atento interpreta como falha linguística primária, quando a raiz está na dificuldade de organizar o fluxo de pensamentos antes de transformá-los em fala.
Compreender esses impactos muda completamente o raciocínio clínico. A intervenção passa a incluir estratégias de organização comunicativa, apoio à autorregulação, ajustes ambientais e técnicas que favorecem o processamento contínuo — não apenas treino linguístico isolado.
Para aprofundar esses elementos e estruturar intervenções realmente ajustadas ao perfil neurofuncional, vale consultar o material Intervenção Fonoaudiológica no TDAH, que detalha mecanismos clínicos, fundamentos atuais e estratégias aplicáveis na rotina terapêutica.
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